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:: O ROMÂNTICO À MODA ANTIGA E A RIOT GIRRRL ::

por andré zp

Dois de novembro de 2001. Um dia-de-finados feliz para Leandro. Sim, ele comparecera ao funeral e enterro dos pais de seus pais, mas isso fora há anos atrás. Hoje, Leandro estava num show de Wander Wildner, que estava na cidade divulgando seu último disco, "Eu Sou Feio... Mas Sou Bonito!". Um feriado tanto quanto bizarro para uma apresentação de rock, pensara Leandro quando vira o cartaz. Mas, afinal, quando é que acontece alguma coisa legal nessa merda de cidade de interior? Desculpem, queridas almas e espíritos, mas hoje, a noite definitivamente não é de silêncio.
Leandro chegou trinta minutos atrasado, encontrando o lugar semi-vazio e com Wander e sua banda no palco, afinando os instrumentos. Leandro sempre foi fã dos Replicantes, e costumava comparar a carreira solo de Wander como a de Frank Black ou Stephen Malkmus: ótima música, mas a banda antiga era melhor. Leandro foi até o bar e pegou uma lata de Schincariol (o bolso agradece, o estômago não...). Foi para o meio da pista - seu lugar preferido num show - e ficou por lá, bebericando sua cerveja e observando Wander iniciar os primeiros acordes de "Mantra das Possibilidades".
Leandro olha para perto do P.A. à direita do palco e vê uma garota de estatura mediana, cabelo preto curto (arrumado com presilhas coloridas), vestindo All-Star vermelho, meias soquetes, saia xadrez e uma camiseta baby-look do Bikini Kill. Flertando ele. Na cara-dura. Ela levanta sua lata de Skol (que vergonha, meu Deus...) e sorri, propondo um brinde à distância. Leandro faz o mesmo com sua lata-prima-pobre da Skol, e é o sinal para a garota vir em sua direção. Ele fica nervoso - não esperava por aquilo. Durante o curto percurso da garota, Leandro tenta lembrar se algum dia isso aconteceu à ele: uma garota tomar a atitude (sempre é ele quem toma as rédeas, e - conseqüentemente - o fora). Ele sorri, com uma pontada de esperança zombeteira: se ela falar não, tenho o trunfo do "você que veio pra cima, não foi?".
- Oi.
- Oi, tudo bem?
-Tudo, e você?
- Hum-hum...
Até agora, a conversa vai bem.
- Você gosta desse porco no palco?
- Quem? Wander Wildner?
- É.
- Claro que sim. Bom, Replicantes é Replicantes, mas...
- Tá, tá, todo mundo fala isso. Mas o que você acha de suas letras?
"O meu carrão Maverikão com motor V-Oitão. E uma mulher de dois andares com garagem pra guardar..."
- Genial, é claro.
- Putz... será que tem alguém aqui que concorda comigo que isso é um monte de merda machista chauvinista?
Bom, já não está tão bem.
- Qual é sua banda nacional preferida? - pergunta Leandro, inocentemente.
- Dominatrix.
Pergunta besta.
- Por favor, não pense que estou sendo grosso, mas... o que você veio fazer aqui? - Leandro está longe de querer que ela vá embora, mas a curiosidade vence.
- E tem alguma coisa melhor pra fazer nessa cidade? – rebate a moça. - E em dia de finados?
Bingo.
- Mas tenta ver o Wander pela ótica musical - insiste Leandro. - Quem é que hoje, na música brasileira, tem coragem de misturar punk rock, folk music, garage e jovem guarda? E ficar tão bom assim?
"Vejo mulheres na chuva da noite... entregando seus corpos pra qualquer um."

A garota olha para Leandro, com uma expressão de "tá vendo?". Ele beberica os últimos goles de sua cerveja, e fica triste por chegar naquele nível da conversa com uma garota em que o assunto está preste a ser encerrado, e cada um vira pra seu lado e diz "bom, até mais", atirando suas respectivas latinhas no chão. Mas, antes de jogar a toalha (que diabos, ela é tão bonita!), Leandro lembra-se que se esqueceu do óbvio:
- Bom... qual é seu nome?
- Juliana - responde ela, prontamente.
"Juuuuliana... me conte a teoria do Seo Sigmund Freud, aquele velho louco cheirador..."
Eles se olham. Leandro prepara-se para virar e sair dali, antes que a situação fique mais constrangedora e aquela discípula da Kathleen Hanna lhe dê um tapão na cara e acabe de vez com sua noite. Mas, para sua surpresa, ela começa a esboçar um sorriso, que se converte em riso e gargalhada. Como se costuma dizer no interior de São Paulo, os dois racham o bico.
"Suas palavras me levam sempre ao Paraíso..."
Conforme suas risadas vão ficando mais baixas, seus rostos vão se aproximando. Leandro toma sua mão e a beija, logo abaixo do punho laceado por um relógio cor-de-rosa vagabundo. Juliana passa sua mão pelo rosto dele, cada um sentindo a respiração do outro. E se beijam, enfim.
"...pois o sol que me ilumina é o seu sorriso."


André ZP(andrezp@terra.com.br) é fazedor de curta-metragens e canta e toca guitarra na banda Mcquade – com forte influência de Wander Wildner.

 

 

 

 

 

 

 

 

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